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IR · Documentos

Como ler uma nota de corretagem (e por que ela é a base do seu IR)

A nota de corretagem é o documento oficial de cada dia de negociação — e a única fonte confiável para calcular preço médio, deduzir custos e apurar o imposto sem cair na malha.

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Leitura: 9 min

O que é a nota de corretagem

A nota de corretagem é o comprovante oficial das operações executadas em um pregão. A corretora emite uma nota por dia em que você negociou — se comprou três ativos diferentes na segunda-feira, tudo aparece na mesma nota daquele dia.

Ela é o documento que a Receita Federal reconhece para comprovar custo de aquisição, valor de venda e custos operacionais. Extrato de posição, print do home broker e relatório da corretora não substituem a nota em uma eventual fiscalização.

O layout muda um pouco entre corretoras, mas a estrutura é padronizada e sempre tem três blocos: negócios realizados, resumo dos negócios e resumo financeiro.

Bloco 1: negócios realizados

É a lista linha a linha de cada operação executada. As colunas típicas:

ColunaO que significa
Q (negociação)O mercado em que a ordem foi executada — normalmente "1-BOVESPA".
C/VC = compra, V = venda. É a coluna mais importante da nota.
Tipo mercado"VISTA" (o padrão), "OPÇÃO DE COMPRA", "FRACIONÁRIO", "TERMO". Define o tratamento tributário.
Especificação do títuloNome do ativo (ex.: "PETROBRAS PN N2" ou "XPTO11 CI"). O código de negociação às vezes aparece só aqui.
Obs.Marcações importantes. "D" indica day trade — operação de compra e venda do mesmo ativo no mesmo pregão, com tributação de 20% e IRRF de 1%.
QuantidadeNúmero de ações ou cotas negociadas naquela execução.
Preço/AjustePreço unitário da execução. Uma mesma ordem pode aparecer em várias linhas, com preços diferentes.
Valor da operaçãoQuantidade × preço. É este valor — e não o "líquido" do fim da nota — que entra no cálculo do preço médio.
D/CD = débito (compra, sai dinheiro), C = crédito (venda, entra dinheiro).
⚠️ Erro nº 1 na leitura da nota

Usar o "líquido para D+2" como valor da operação. Esse número é o saldo financeiro do dia inteiro — soma compras, vendas e todas as taxas. Para calcular preço médio, use o valor da operação de cada linha, e trate as taxas separadamente.

Bloco 2: resumo dos negócios

Consolida o que aconteceu no dia: total de compras à vista, total de vendas à vista, operações com opções, valor das operações e o saldo. Serve como conferência — se a soma das linhas do bloco 1 não bater com o resumo, há algo errado na sua leitura.

Nesse bloco também aparece a separação entre day trade e operações normais, quando houver. Essa distinção é tributária e não pode ser ignorada: day trade paga 20% e não tem isenção alguma; operação normal em ações paga 15% e conta com a isenção de vendas até R$ 20 mil no mês.

Bloco 3: resumo financeiro e as taxas

É aqui que estão os custos — e o que reduz legalmente o seu imposto:

LinhaO que é
Taxa de liquidaçãoCobrada pela B3 pela liquidação e custódia central das operações.
Taxa de registroCobrada pela B3 no registro de determinadas operações (comum em derivativos).
EmolumentosTaxa de negociação da B3. Junto com a de liquidação, soma cerca de 0,03% do volume em operações normais.
Taxa ANATaxa de análise, quando aplicável.
CorretagemO que a corretora cobra pela execução. Hoje frequentemente R$ 0,00 em operações normais.
ISSImposto municipal sobre a corretagem. Se a corretagem é zero, o ISS também é.
I.R.R.F. s/ operaçõesO imposto retido na fonte — ver o bloco seguinte.
Líquido para D+2O que entra ou sai da sua conta dois dias úteis depois. Serve para conferir o extrato, não para calcular imposto.

Todas essas taxas são dedutíveis — na compra somam ao custo de aquisição, na venda subtraem do valor recebido. Quem ignora isso paga mais imposto do que deve.

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O IRRF "dedo-duro"

Na linha "I.R.R.F. s/ operações" aparece um valor mínimo que confunde muita gente. Ele existe por dois motivos e em duas modalidades:

Em ambos os casos, o valor retido pode ser abatido do imposto devido na apuração mensal, ou, se não houver imposto a pagar, acumulado para os meses seguintes dentro do mesmo ano-calendário. Ele também deve ser informado na ficha de Renda Variável da declaração anual.

Um detalhe importante: como a retenção de 0,005% acontece mesmo em vendas isentas (abaixo de R$ 20 mil no mês em ações), a Receita sabe que você operou. Não declarar operações "porque eram isentas" é uma das rotas mais rápidas para a malha fina — a isenção dispensa o imposto, não a declaração.

Como a nota vira preço médio

O preço médio é o custo de aquisição dividido pela quantidade — e o custo de aquisição inclui as taxas. Um exemplo de compra:

  1. Compra de 100 ações a R$ 30,00

    Valor da operação: R$ 3.000,00.

  2. Custos da nota atribuídos a essa operação

    Emolumentos + taxa de liquidação: R$ 0,90. Corretagem: R$ 0,00. Total: R$ 0,90.

  3. Custo de aquisição

    R$ 3.000,00 + R$ 0,90 = R$ 3.000,90 → preço médio de R$ 30,009 por ação.

  4. Na venda, o inverso

    Vendendo as 100 ações a R$ 35,00 (R$ 3.500,00) com R$ 1,05 de custos, o valor líquido de venda é R$ 3.498,95. Lucro tributável: R$ 3.498,95 − R$ 3.000,90 = R$ 498,05.

Aportes sucessivos formam um preço médio ponderado: some todos os custos de aquisição e divida pela quantidade total. Vendas não alteram o preço médio — apenas reduzem a quantidade.

Rateio de custos entre operações

Quando a nota tem várias operações, as taxas vêm consolidadas no rodapé. Para atribuir corretamente a cada ativo, o critério aceito é o rateio proporcional ao valor de cada operação.

Exemplo: uma nota com R$ 10,00 de custos totais e três operações — R$ 3.000 (30%), R$ 5.000 (50%) e R$ 2.000 (20%). O rateio fica em R$ 3,00, R$ 5,00 e R$ 2,00, respectivamente. É trabalhoso à mão, e é exatamente o tipo de cálculo em que a planilha começa a divergir da realidade depois de alguns meses.

Onde baixar e por quanto tempo guardar

Perguntas frequentes

O que é o IRRF de 0,005% na nota de corretagem?

É a retenção na fonte sobre o valor das vendas em operações normais de renda variável, conhecida como "dedo-duro" porque informa à Receita Federal que houve operação. O valor pode ser abatido do imposto devido na apuração mensal ou acumulado para os meses seguintes do mesmo ano.

Qual valor da nota de corretagem devo usar para calcular o preço médio?

O "valor da operação" de cada linha do bloco de negócios realizados, somado aos custos rateados (emolumentos, taxa de liquidação, corretagem e ISS). Nunca use o "líquido para D+2", que é o saldo financeiro do dia inteiro e mistura compras, vendas e taxas.

As taxas da nota de corretagem reduzem o Imposto de Renda?

Sim. Os custos das compras somam-se ao custo de aquisição e os das vendas são deduzidos do valor recebido, reduzindo o lucro tributável. É uma dedução prevista na legislação e frequentemente esquecida por quem calcula o IR na mão.

Como identificar uma operação de day trade na nota?

Pela coluna "Obs.", onde aparece a marcação "D" nas linhas de compra e venda do mesmo ativo no mesmo pregão. Day trade tem tributação de 20% sobre o lucro, IRRF de 1% na fonte e não conta com a isenção de R$ 20 mil.

Por quanto tempo preciso guardar as notas de corretagem?

No mínimo cinco anos contados do início do exercício seguinte ao da declaração. Na prática, guarde a nota de compra enquanto ainda tiver o ativo em carteira: ela é a prova do custo de aquisição, por mais antiga que seja.

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