O que é a nota de corretagem
A nota de corretagem é o comprovante oficial das operações executadas em um pregão. A corretora emite uma nota por dia em que você negociou — se comprou três ativos diferentes na segunda-feira, tudo aparece na mesma nota daquele dia.
Ela é o documento que a Receita Federal reconhece para comprovar custo de aquisição, valor de venda e custos operacionais. Extrato de posição, print do home broker e relatório da corretora não substituem a nota em uma eventual fiscalização.
O layout muda um pouco entre corretoras, mas a estrutura é padronizada e sempre tem três blocos: negócios realizados, resumo dos negócios e resumo financeiro.
Bloco 1: negócios realizados
É a lista linha a linha de cada operação executada. As colunas típicas:
| Coluna | O que significa |
|---|---|
| Q (negociação) | O mercado em que a ordem foi executada — normalmente "1-BOVESPA". |
| C/V | C = compra, V = venda. É a coluna mais importante da nota. |
| Tipo mercado | "VISTA" (o padrão), "OPÇÃO DE COMPRA", "FRACIONÁRIO", "TERMO". Define o tratamento tributário. |
| Especificação do título | Nome do ativo (ex.: "PETROBRAS PN N2" ou "XPTO11 CI"). O código de negociação às vezes aparece só aqui. |
| Obs. | Marcações importantes. "D" indica day trade — operação de compra e venda do mesmo ativo no mesmo pregão, com tributação de 20% e IRRF de 1%. |
| Quantidade | Número de ações ou cotas negociadas naquela execução. |
| Preço/Ajuste | Preço unitário da execução. Uma mesma ordem pode aparecer em várias linhas, com preços diferentes. |
| Valor da operação | Quantidade × preço. É este valor — e não o "líquido" do fim da nota — que entra no cálculo do preço médio. |
| D/C | D = débito (compra, sai dinheiro), C = crédito (venda, entra dinheiro). |
Usar o "líquido para D+2" como valor da operação. Esse número é o saldo financeiro do dia inteiro — soma compras, vendas e todas as taxas. Para calcular preço médio, use o valor da operação de cada linha, e trate as taxas separadamente.
Bloco 2: resumo dos negócios
Consolida o que aconteceu no dia: total de compras à vista, total de vendas à vista, operações com opções, valor das operações e o saldo. Serve como conferência — se a soma das linhas do bloco 1 não bater com o resumo, há algo errado na sua leitura.
Nesse bloco também aparece a separação entre day trade e operações normais, quando houver. Essa distinção é tributária e não pode ser ignorada: day trade paga 20% e não tem isenção alguma; operação normal em ações paga 15% e conta com a isenção de vendas até R$ 20 mil no mês.
Bloco 3: resumo financeiro e as taxas
É aqui que estão os custos — e o que reduz legalmente o seu imposto:
| Linha | O que é |
|---|---|
| Taxa de liquidação | Cobrada pela B3 pela liquidação e custódia central das operações. |
| Taxa de registro | Cobrada pela B3 no registro de determinadas operações (comum em derivativos). |
| Emolumentos | Taxa de negociação da B3. Junto com a de liquidação, soma cerca de 0,03% do volume em operações normais. |
| Taxa ANA | Taxa de análise, quando aplicável. |
| Corretagem | O que a corretora cobra pela execução. Hoje frequentemente R$ 0,00 em operações normais. |
| ISS | Imposto municipal sobre a corretagem. Se a corretagem é zero, o ISS também é. |
| I.R.R.F. s/ operações | O imposto retido na fonte — ver o bloco seguinte. |
| Líquido para D+2 | O que entra ou sai da sua conta dois dias úteis depois. Serve para conferir o extrato, não para calcular imposto. |
Todas essas taxas são dedutíveis — na compra somam ao custo de aquisição, na venda subtraem do valor recebido. Quem ignora isso paga mais imposto do que deve.
Importe a nota em PDF e pule a digitação
O Ponto Invest lê a nota de corretagem em PDF, extrai cada operação com as taxas rateadas e atualiza preço médio e apuração de IR automaticamente.
Começar agora →O IRRF "dedo-duro"
Na linha "I.R.R.F. s/ operações" aparece um valor mínimo que confunde muita gente. Ele existe por dois motivos e em duas modalidades:
- Operações normais (swing trade): retenção de 0,005% sobre o valor das vendas. É um valor simbólico — em uma venda de R$ 10.000, R$ 0,50 — e o apelido "dedo-duro" vem de sua verdadeira função: informar à Receita que houve operação, permitindo o cruzamento com a sua declaração.
- Day trade: retenção de 1% sobre o lucro apurado na operação. Bem mais relevante que a anterior.
Em ambos os casos, o valor retido pode ser abatido do imposto devido na apuração mensal, ou, se não houver imposto a pagar, acumulado para os meses seguintes dentro do mesmo ano-calendário. Ele também deve ser informado na ficha de Renda Variável da declaração anual.
Um detalhe importante: como a retenção de 0,005% acontece mesmo em vendas isentas (abaixo de R$ 20 mil no mês em ações), a Receita sabe que você operou. Não declarar operações "porque eram isentas" é uma das rotas mais rápidas para a malha fina — a isenção dispensa o imposto, não a declaração.
Como a nota vira preço médio
O preço médio é o custo de aquisição dividido pela quantidade — e o custo de aquisição inclui as taxas. Um exemplo de compra:
-
Compra de 100 ações a R$ 30,00
Valor da operação: R$ 3.000,00.
-
Custos da nota atribuídos a essa operação
Emolumentos + taxa de liquidação: R$ 0,90. Corretagem: R$ 0,00. Total: R$ 0,90.
-
Custo de aquisição
R$ 3.000,00 + R$ 0,90 = R$ 3.000,90 → preço médio de R$ 30,009 por ação.
-
Na venda, o inverso
Vendendo as 100 ações a R$ 35,00 (R$ 3.500,00) com R$ 1,05 de custos, o valor líquido de venda é R$ 3.498,95. Lucro tributável: R$ 3.498,95 − R$ 3.000,90 = R$ 498,05.
Aportes sucessivos formam um preço médio ponderado: some todos os custos de aquisição e divida pela quantidade total. Vendas não alteram o preço médio — apenas reduzem a quantidade.
Rateio de custos entre operações
Quando a nota tem várias operações, as taxas vêm consolidadas no rodapé. Para atribuir corretamente a cada ativo, o critério aceito é o rateio proporcional ao valor de cada operação.
Exemplo: uma nota com R$ 10,00 de custos totais e três operações — R$ 3.000 (30%), R$ 5.000 (50%) e R$ 2.000 (20%). O rateio fica em R$ 3,00, R$ 5,00 e R$ 2,00, respectivamente. É trabalhoso à mão, e é exatamente o tipo de cálculo em que a planilha começa a divergir da realidade depois de alguns meses.
Onde baixar e por quanto tempo guardar
- Na corretora: a área do investidor costuma ter todas as notas em PDF, organizadas por data.
- Na B3: a Área do Investidor (sucessora do antigo CEI) mostra sua posição consolidada e a movimentação por ativo — útil quando você mudou de corretora ou perdeu notas antigas. Atenção: o extrato da B3 não traz as taxas rateadas por operação, então ele complementa, mas não substitui, a nota.
- Prazo de guarda: no mínimo 5 anos contados do início do exercício seguinte ao da declaração — é o prazo em que a Receita pode revisar o lançamento. Na prática, guarde enquanto ainda tiver o ativo em carteira, porque a nota de compra é a prova do custo de aquisição, mesmo que ela tenha 15 anos.
Perguntas frequentes
O que é o IRRF de 0,005% na nota de corretagem?
É a retenção na fonte sobre o valor das vendas em operações normais de renda variável, conhecida como "dedo-duro" porque informa à Receita Federal que houve operação. O valor pode ser abatido do imposto devido na apuração mensal ou acumulado para os meses seguintes do mesmo ano.
Qual valor da nota de corretagem devo usar para calcular o preço médio?
O "valor da operação" de cada linha do bloco de negócios realizados, somado aos custos rateados (emolumentos, taxa de liquidação, corretagem e ISS). Nunca use o "líquido para D+2", que é o saldo financeiro do dia inteiro e mistura compras, vendas e taxas.
As taxas da nota de corretagem reduzem o Imposto de Renda?
Sim. Os custos das compras somam-se ao custo de aquisição e os das vendas são deduzidos do valor recebido, reduzindo o lucro tributável. É uma dedução prevista na legislação e frequentemente esquecida por quem calcula o IR na mão.
Como identificar uma operação de day trade na nota?
Pela coluna "Obs.", onde aparece a marcação "D" nas linhas de compra e venda do mesmo ativo no mesmo pregão. Day trade tem tributação de 20% sobre o lucro, IRRF de 1% na fonte e não conta com a isenção de R$ 20 mil.
Por quanto tempo preciso guardar as notas de corretagem?
No mínimo cinco anos contados do início do exercício seguinte ao da declaração. Na prática, guarde a nota de compra enquanto ainda tiver o ativo em carteira: ela é a prova do custo de aquisição, por mais antiga que seja.
Chega de digitar nota de corretagem
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