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Rentabilidade real: como descontar a inflação (e o IR) do retorno

Render 12% em um ano com inflação de 5% não é ganhar 7%. E um Tesouro IPCA+ 6% não entrega 6% reais no seu bolso. Veja a conta correta — e por que ela quase sempre decepciona.

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Leitura: 8 min

Nominal x real: a diferença que importa

Toda rentabilidade divulgada é nominal: quantos reais a mais você tem. A rentabilidade real responde a outra pergunta, muito mais útil: quanto a mais você consegue comprar.

Se o seu dinheiro rendeu 8% no ano e os preços subiram 8%, o saldo da conta aumentou — mas o seu poder de compra ficou exatamente igual. A rentabilidade real foi zero. E se a inflação foi de 10%, você ficou mais pobre, apesar do número maior no extrato.

É por isso que investidor experiente raramente comemora rentabilidade nominal alta: em cenários de juros altos, ela costuma vir acompanhada de inflação alta.

A fórmula correta (e o erro comum)

Quase todo mundo subtrai: "rendi 12%, inflação 5%, logo ganhei 7%". Está errado — a subtração é uma aproximação que erra mais quanto maiores forem os números.

📐 Fórmula de Fisher

Rentabilidade real = [(1 + rentabilidade nominal) ÷ (1 + inflação)] − 1

Com 12% de rentabilidade nominal e 5% de inflação:

A diferença de 0,33 ponto parece pequena em um ano. Em 20 anos de acumulação, ela se transforma em milhares de reais. E em cenários de inflação alta o erro cresce: com 30% nominal e 20% de inflação, a subtração diz 10%, mas a conta correta dá 8,33%.

A ordem certa: taxas, IR e só então inflação

Um cálculo de rentabilidade real que ignora o imposto é tão incompleto quanto um que ignora a inflação. A sequência correta é:

  1. 1. Rentabilidade nominal bruta

    O quanto a aplicação rendeu antes de qualquer desconto — é o número da propaganda.

  2. 2. Menos taxas

    Custódia, administração, corretagem. Em fundos, a cota já vem líquida de taxa de administração; no Tesouro, desconte os 0,20% a.a. de custódia da B3.

  3. 3. Menos Imposto de Renda

    Tabela regressiva (22,5% a 15%) na renda fixa, 15% ou 20% na renda variável, come-cotas nos fundos. Aqui você chega à rentabilidade nominal líquida.

  4. 4. Só então deflacione

    Aplique a fórmula de Fisher sobre o líquido. O resultado é a rentabilidade real líquida — o único número que responde "eu fiquei mais rico?".

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O caso do Tesouro IPCA+: o imposto sobre a inflação

Este é o ponto menos comentado — e o mais importante deste artigo. Um Tesouro IPCA+ 6% não entrega 6% de rentabilidade real no seu bolso. O motivo: o Imposto de Renda incide sobre o rendimento nominal, que inclui a correção da inflação. Você paga imposto sobre a parcela que apenas repõe seu poder de compra.

Veja a conta com IPCA de 5% no ano e IR de 15% (prazo acima de 720 dias):

EtapaCálculoResultado
Rendimento nominal bruto1,05 × 1,06 − 111,30%
IR de 15% sobre o rendimento15% × 11,30−1,70 p.p.
Rendimento nominal líquido11,30 − 1,709,61%
Deflacionando pelo IPCA1,0961 ÷ 1,05 − 14,39% real líquido

Ou seja: dos 6% reais contratados, sobram 4,39%. E quanto maior a inflação no período, maior a mordida — porque o imposto incide sobre uma base nominal maior. Com IPCA de 10%, o mesmo título de IPCA+6% entrega cerca de 3,7% reais líquidos.

📌 Consequência prática

A taxa que aparece na tela do Tesouro Direto é real bruta. Para saber o que sobra, desconte o IR sobre o rendimento nominal — e lembre que a taxa de custódia de 0,20% a.a. ainda tira mais um pouco.

Comparando aplicações no real líquido

Cenário: aplicação de 2 anos (IR de 15%), CDI a 11% ao ano e IPCA a 5% ao ano.

AplicaçãoNominal brutoNominal líquidoReal líquido
Poupança (regra atual, Selic acima de 8,5%)~7,4%7,4% (isenta)~2,3%
CDB 100% do CDI11,0%9,35%4,14%
CDB 110% do CDI12,1%10,29%5,03%
LCI 92% do CDI (isenta)10,12%10,12%4,88%
Tesouro IPCA+ 6%11,30%9,61%4,39%

Duas leituras importantes: a poupança entrega uma rentabilidade real positiva mas modesta neste cenário — e vira negativa sempre que a inflação supera o seu rendimento; e produtos isentos ganham posições quando a comparação é feita no líquido, exatamente como mostra o gross-up.

Como usar isso na prática

Perguntas frequentes

Como se calcula a rentabilidade real de um investimento?

Pela fórmula de Fisher: divide-se (1 mais a rentabilidade nominal) por (1 mais a inflação do período) e subtrai-se 1. Com 12% de rendimento e 5% de inflação, a rentabilidade real é de 6,67% — e não 7%, como sugere a subtração simples.

Por que subtrair a inflação da rentabilidade dá errado?

Porque rentabilidade e inflação são efeitos multiplicativos, não aditivos. A subtração é uma aproximação aceitável para números pequenos, mas o erro cresce rapidamente: com 30% de rendimento e 20% de inflação, a subtração indica 10% quando o valor correto é 8,33%.

Um Tesouro IPCA+ 6% entrega 6% de ganho real?

Não. O Imposto de Renda incide sobre o rendimento nominal, que inclui a correção da inflação. Com IPCA de 5% e IR de 15%, um IPCA+ 6% entrega cerca de 4,39% de rentabilidade real líquida — e ainda há a taxa de custódia de 0,20% ao ano.

Qual a ordem correta para calcular a rentabilidade real líquida?

Primeiro parte-se da rentabilidade nominal bruta, depois descontam-se as taxas, em seguida o Imposto de Renda — chegando à rentabilidade nominal líquida — e só então aplica-se a fórmula de Fisher para descontar a inflação.

A poupança pode ter rentabilidade real negativa?

Sim, e isso acontece com frequência. Sempre que a inflação supera o rendimento da poupança no período, o poder de compra do dinheiro aplicado diminui, mesmo com o saldo nominal da conta aumentando.

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